quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Virtude do futuro






Recentemente, fui questionada sobre qual virtude eu espero que se desenvolva na escola. E então fiquei em estado de imersão interior buscando encontrar o que de fato espero. Assim, entrelaçada nas minhas teias de pensamento, surgiu aquela que considero a virtude do futuro: empatia.

  Tem-se a empatia como a virtude que se expressa através de uma fusão  emocional que proporciona que o indivíduo se acomode na situação do outro, experimentando os seus sentimentos e as suas emoções. Ser empático é, portanto, ter a aptidão de vivenciar objetivamente e racionalmente os sentimentos do outro. Para obter-se tal intento, é  necessário  haver mínima  comunicação afetiva entre os sujeitos, envolvimento intersubjetivo, de modo que essa conexão enseje a compreensão do ser e estar do outro, acarretando na prática de atitudes solidárias.

A capacidade de abstração que a empatia sugere, de imaginar-se efetivamente como se sente outra pessoa em determinada situação, consiste na qualidade moral do futuro, no ideal de civilização que sonhamos, de respeito aos direitos fundamentais de cada um, respeito ao tempo de desenvolvimento, respeito perante as múltiplas inteligências, e tantos outros aspectos da complexidade que significa ser e existir como pessoa.
 
O exercício da empatia  é a proposta basilar do cristianismo, expressa na máxima de amar ao próximo como a si mesmo, pois no momento em que me coloco no lugar do outro, consigo salvaguardar minha subjetividade de possíveis más escolhas em julgar as atitudes e os comportamentos alheios, e fixar-me na cooperação que posso praticar diante de alguma situação, contribuindo para o advento do bem. Porém,  a ideia de exercício  dessa virtude não  carece de religiosismos para ter ampla aceitação, uma vez que próprio exercício do ato de pensar (e ler), leva a considerá-la como fundamental para a manutenção de um Estado de Direito, isto  é,  um Estado pautado no império das leis e da efetividade dos diretos fundamentais. Como então primar por tais postulados sem o exercício da empatia?

O grande desafio é  sair do casulo do egocentrismo pessoal e grupal, despojar-se da ideia do eu supremo e do “nós”  limitado, para abranger a maior soma de indivíduos possível,  ou melhor, a todos. A empatia é  o oposto do estado de alma que se concentra em si mesmo, da exaltação exagerada do próprio “eu”, sendo o “eu”, o universo. Ao mesmo tempo, há aqueles comportamentos voltados para os interesses de um grupo, uma casta, uma categoria, excluindo-se os demais, há  indiferença aos problemas dos outros e super atenção as demandas somente daquele grupo. É o que ocorre nas oligarquias, ainda existentes em pleno contexto histórico de desespero pela efetividade dos ideais de igualdade,  solidariedade e fraternidade. Muitos de nós  se mostram exaustos do sistema, das improbidades, dos excessos ou falta de punição, mas poucos,  muitos poucos saem do discurso acadêmico burguês para atingir o plano real do cotidiano.

A empatia é,  com efeito, a base dessa nova concepção de sociedade, que freiará atitudes inóspitas  e desprezíveis de alguns que revelam sentimentos ilusórios  de superioridade, dando lugar para uma disposição de praticar o bem como algo espontâneo e necessário para a coexistência pacífica e uma existência feliz, no seio de uma sociedade onde a hipocrisia será definitivamente uma coisa do passado. 

domingo, 8 de junho de 2014

Entre crianças e gatos




“Atirei o pau no gato-to-to, mas o gato-to-to não morreu-reu-reu (...)”. Como cantiga de roda ou de ninar, essa canção causa espanto em qualquer pensador da educação da atualidade pela letra que descreve maus tratos a um animal. A crítica é feita para alertar sobre um suposto incentivo a um comportamento agressivo por parte da criança perante os animais. Como forma de corrigir esse equívoco, criou-se uma paródia politicamente correta: “Não atire o pau no gato porque isso não se faz, o gatinho é nosso amigo, não devemos maltratar os animais, jamais!”

Muito além de querer adotar um comportamento de acordo com as regras da sociedade, devemos meditar profundamente acerca do que essa cantiga pode nos fazer questionar sobre “padrões” de educação de uma criança. Para começar, não acredito que a canção “Atirei o pau no gato” possa adentrar no inconsciente do meu filho de tal modo a corromper o seu caráter tornando-o um homem agressivo.

Percebo que há uma forte preocupação dos pais com tudo aquilo que está fora do círculo familiar: a influência dos amigos, da televisão, da moda da época, da violência das ruas, dentre outros. Por outro lado, não consigo visualizar a mesma preocupação com a influência  do próprio comportamento, isto é, comportamento dos pais, na vida dos filhos.

Quando Jesus afirmou que deveríamos “amar o próximo como a nós mesmos”, ele estava querendo dizer que o processo educativo é dialético. Não há como amar-se sem amar ao outro, assim como não como amar o outro sem amar-se. Sendo assim, se você afirma amar alguém, mas se despreza como ser humano, certamente, à luz do que Cristo falou, você não ama verdadeiramente a quem você acredita que ama.

Educar é um ato de amor. Educar é amar. Logo, para educar uma criança, preciso primeiramente me educar. E é nesse  processo auto educativo que consigo passar valores e atitudes, que, aí sim, impregnarão no inconsciente infantil da criança como modelo a ser seguido. Notem que comparações a melhor sempre são atribuídas aos pais: esse menino tem a inteligência do pai, essa menina escreve tão bem quanto a mãe! E etc, etc, etc. Mas, a comparações a menor, regra geral, não: não sei pra quem esse menino puxou!!! Diz a mãe descabelando-se perante um comportamento inadequado de um filho.

Sem querer adentrar em questões religiosas e/ou científicas, é fato que o núcleo familiar é o que exerce maior influência ou uma influência demasiadamente considerável na formação do caráter da criança. Essa é uma informação palpável que todos nós, ora pais e educadores, podemos nos apossar para formar pessoas dando o nosso melhor para isso.

Não há como pretender-se educador de uma criança sem haver autovisitação contínua e persistente em busca dos valores que atravessam as gerações: o amor, o respeito, a lealdade, a solidariedade, a honestidade, entre outros. Com efeito, o jargão “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”, não faz nenhum sentido porque é o nosso comportamento cotidiano que educa nossos filhos, e muito pouco nossas palavras. Claro que as palavras têm fundamental importância, mas principalmente se estiverem em sintonia com a nossa conduta.

Então, não se preocupe que cantar “atirei o pau no gato” para o seu filho não vai fazer dele um agressor, mas tenha certeza que a sua agressividade dentro de casa sim.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

 
Devemos perdoar?
 
Quando penso o que diz o evangelho a respeito do perdão, que devemos perdoar setenta vezes sete vezes, reflito sobre se devemos perdoar. No decorrer do tempo muitos fatos ocorrem e com isso as pessoas acabam nos magoando ou nos aborrecendo vez ou outra. E então o relacionamento resta prejudicado por conta desses atritos.
Alguns de nós orgulham-se por falar o que pensam. E às vezes falam imediatamente após a ofensa ou o desconforto que sentiu diante da conduta de alguém. Já outros não conseguem expor seus pensamentos porque precisam de um certo tempo para compreender o que está sucedendo. E quando têm a resposta na ponta da língua, a discussão findou, o fato passou, e não há mais oportunidade de falar o que pensou, a não ser que se crie outra. E existem também aqueles que não falam porque por alguma razão se reprimem.
A questão que assola minha mente é: devemos comunicar quando somos magoados por alguém? Devemos chegar com essa pessoa e dizer: “Fulano, você me magoou por causa disso, disso e disso e agora meu relacionamento com você está na corda bamba. Tem me incomodado a sua presença em função do que você fez e então preciso de um tempo até tudo isso passar” ou então “Fulano, simplesmente não quero mais me relacionar com você, ou melhor, vou sim manter nossa amizade, mas não serei leal nem de confiança, pois para sempre lembrarei de sua falta comigo, e sempre que puder falarei mal de você para outras pessoas”.
O ponto que desejo chegar é que raramente somos honestos com as pessoas que nos magoaram para dizer que precisamos de um tempo para perdoar ou para simplesmente dizer que não dá mais e serei para sempre dissimulado. Eu aponto duas razões: a primeira é que a posição de magoado embora dolorida é extremamente confortável, achamos que estamos com a razão e isso enche nosso peito de convicções e argumentos. De fato, muitas vezes a razão é nossa mesmo, pra que então querer sair do papel de credor? Ruim mesmo é ser o devedor da história, mas credor ninguém quer deixar de ser.
A segunda razão que eu aponto é que dificilmente nos conhecemos o suficiente para comunicar a alguém sobre nossas sensações e impressões. Geralmente nós reagimos a ação do outro, no lugar de pensar e agir. A onda acaba nos levando, e ficamos sem querer na filosofia do “deixa a vida me levar”. E muitos de nós que se julgam conforme a bandeira bigbrotheana de que “eu estou sendo eu mesma” ou “ eu não estou jogando” , cospem palavras de fogo com a justificativa de que possuem a personalidade forte quando na realidade não sabem lidar com os próprios sentimentos, e no fim das contas permitindo que o outro manipule o seu comportamento.
E quando somos os devedores? Como é que fica? Saber em que posição estamos exige um mínimo de reflexão. O problema se instala quando temos dificuldade em verificar que na realidade os ofensores somos nós. Tem gente por aí que é credor do mundo, já dizia uma amiga próxima.
Certa vez soube da história de uma mulher que além de bater na filha, a aprisionava num canto escuro da casa toda vez que tinha algum aborrecimento com a garota. Anos mais tarde a filha já adulta descobriu que a mãe sofria de um transtorno mental grave ocasionado pelos maus tratos que sofreu na infância e mais uma predisposição genética. Quem é a vítima e quem é o algoz? Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Acredito que nada justifica um erro cometido, porém fatos podem explicar e ajudar a esclarecer circunstâncias. E quem garante que nós na posição daquela pessoa a quem estamos julgando ferozmente não cometeríamos o mesmo delito? Eu sinto em dizer que não há garantias para isso!
Então pergunto novamente: devemos perdoar? Talvez devamos ser perdoados primeiro. Ou melhor, talvez devamos pedir perdão a alguém antes de pretender perdoar alguém. Como já disse, é fácil e confortável estar na posição de ferido. O orgulho nos faz pensar que somos mais do que realmente somos, ele engrandece, exacerba nossas características, fazendo-nos pensar que somos capazes de algumas coisas que não somos. Aceite que você consegue conduzir um carro na cidade, mas que não é capaz de dirigir com segurança na estrada, por exemplo. Essa atitude pode salvar vidas. Mas para isso faz-se necessário autoconhecimento, o que é custoso.
Muito além de querer repetir o jargão de que “todo mundo merece uma segunda chance”, embora ele realmente seja verdadeiro e válido, pretendo suscitar esse algoz de dentro de nós, para que ele ressurja através de uma meditação ponderada, conduzindo-nos ao pedido sincero de perdão para que alcancemos o mérito de perdoar.
 

domingo, 3 de fevereiro de 2013




APONTAMENTOS SOBRE A REFORMA ÍNTIMA

 

Comprometer-se com a reforma íntima requer muitos esforços e renúncias. Exige que ofereçamos rosas a alguém que te presenteia com espinhos. Significa saber que pensar no outro pressupõe a reflexão de que isso é melhor para si mesmo antes de tudo, e que isso não implica egoísmo e sim auto estima.

São muitas as reflexões que sobrevêm a mente de alguém que tem um compromisso perante si mesmo e Deus de fazer crescer dentro de si valores do bem. Então, pergunto por que é tão difícil executar aquilo que no fundo é melhor para nós?

Existem dias que fugimos dos pensamentos, da reflexão e do contemplamento. E então ficamos  diferentes, um pouco congelados, ou melhor, paralisados. Quando se inicia esse processo de reforma moral e para, por algum tempo ele segue o seu próprio curso automaticamente. Aí chega um tempo que não ganha impulso sozinho e precisa novamente de nosso trabalho interior.

A reforma íntima só é possível quando ao mesmo tempo realizamos o autoconhecimento. Como seria possível laborar para fazer aflorar bons sentimentos quando não se conhece os maus? É a consciência da pessoa que abrange conforme o autoconhecimento vai desvelando-se. A partir daí gera-se o efeito automático desse processo auto reformador e conhecedor, uma vez que não há mais como retornar ao ponto de partida.

Que a reforma íntima é trabalho cansativo, já sabemos. O processo automático referido sucede no momento que surge fadiga de mudar. O cansaço é grande porque conhecer-se dói e mudar também dói. Então encontramo-nos entediados diante do binômio: mudar pela dor ou por amor? Ledo engano. Ambas as formas doem. Quando se diz que se pretende aprender por amor queremos dizer que dispensamos as dificuldades da vida e voluntariamente buscamos melhorar. Mas aí chegamos no ponto da mudança e sentimos dor. Dor de mudar.

A conclusão é que buscando mudar ou tendo que mudar pelas circunstâncias desfavoráveis da vida sempre estaremos no seio da dor. Mas não quero que meu discurso adquira um conteúdo pessimista e melancólico, e sim que possamos ver a dor como um instrumental necessário e hábil a proporcionar condições para empreender uma mudança interior.

Sabe aquela coisa que dizem: é a vida! E é isso mesmo, a vida é uma imposição amorosa para que consigamos sair da condição existencial que nos leva a dor. Em outras palavras: há flores sobre as pedras!

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


Mal costume?

Começo esse texto afirmando que classifico os maus tratos a criança como a prática mais abominável de todos os tempos. Dito de outro modo, trata-se de um grave mal costume. Os adultos foram mal acostumados quando aprenderam a tratar violentamente os infantes.

Davi contabiliza quase dois meses de vida e ao longo desses quase sessenta dias de vida já ouvi várias vezes dos adultos que deixar a criança muito tempo no colo o deixaria mal acostumado. Aí então eu reafirmo: mal costume é bater em criança. Outra vez disseram que a criança fica preguiçosa. Preguiça é deixar de disciplinar os filhos optando pela violência como o “cala boca e me deixa em paz” mais “eficaz” em curto prazo.

Imersa nas circunstâncias específicas e peculiares da maternidade e mais especificamente o pós parto verifico que de um modo geral as pessoas não concordam com a prática de acomodar o bebê no colo apresentando as mais diversas justificativas, como as acima mencionadas. Posso acrescentar, ainda, que costumeiramente supõe-se que no futuro o bebê ficará viciado no contato físico. Então eu pergunto: que futuro é esse?

Curioso notar que a separação entre bebê e mãe é prática antiga na sociedade ocidental, porém esses adultos de agora (outrora bebês apartados de suas mães) são pessoas extremamente carentes de afeto, de abraços, de toque. Carência essa que se expressa nas mais diversas formas e comportamentos doentis ou vícios. Significa dizer que o intento que se pretende com a referida separação não é alcançado. E mais, são produzidos adultos dependentes emocionalmente, que necessitam sempre reafirmar-se contundentemente para não permitir vazar sua fragilidade.

Sabemos que bebês são filhotes de pessoa humana e que, portanto, possuem inteligência. Bebês que choram demais são injustamente acusados de estarem fazendo manha, birra. É que nessas ocasiões considera-se veementemente que se tratam de seres pensantes, que compreendem a situações nas quais estão envolvidos. De outro modo, o adulto ignora o bebê submetendo-o a diversas atividades e circunstâncias sem estabelecer fios de comunicação eficiente deixando de falar, por exemplo, o momento que vai levantar as perninhas na troca de fralda, não informando que o bebê vai tomar alguma vacina ou ir a algum lugar mais agitado,  e também deixando de falar sobre os sentimentos do adulto ou sobre quando teve um dia ruim ou sobre o que o aborrece.

É mais que um comportamento contraditório. É o envio de uma mensagem dúbia ao bebê: às vezes o trato como pessoa, quando é conveniente, às vezes não. Não pretendo ser sectária em minha abordagem e elucubrações, mas é que as crianças, e mais especificamente, os bebês, são pessoas!

Por tudo isso penso que a decisão de ter um filho é algo muito grave e de uma responsabilidade gigantesca. Vejo como é necessário o exercício da empatia. Pôr-se no lugar do bebê, e fazer a ele o que gostaríamos que se nos fizessem.

A criança no colo irrita o adulto que se sentiu pouco amado na infância, porque intuitivamente acha injusto não ter recebido esse tratamento ou incide na mesma conduta de Caim, da história bíblica: a tal da inveja. Uma inveja que julgo ser tão automática que passa despercebida pelo adulto ressentido com seu passado e acostumado com a cultura do desamor. Por esta razão, cuidar de um bebê é reviver o bebê que um dia fomos. É entrar em contato com essa memória infantil que se camufla em nossas conexões cerebrais manifestando-se em nossa conduta involuntariamente.

Olhar um bebê é encontrar-se. É permitir que o vento das lembranças abram as janelas da nossa casa mental.

 

 

 




Carta aos quinze

Por onde tenho andado e sempre distante, fecho os olhos para vê-la num universo amplo, inimaginável, tentando o conhecimento da causa de pensar. Mas, não chega a ser um pensamento abstrato, mesmo não tendo como conhecer a fonte. Imagino o reflexo do meu estro vagueando por essa fonte que também não sabe me decifrar.

Não somos, porém, criaturas analíticas, apesar de sermos de carne e osso. Porque somos, antes de tudo, almas que se libram àquela distância inevitável, quase que inconscientemente. O sofrimento, este audaz companheiro inseparável da tristeza, parece até condoer-se de nós diante do amor inexplicável que une os espíritos vinculados antes do nascimento do corpo.

A relação humana, contudo, cria obstáculos a manifestação desses sentimentos, tornando-nos máquinas de viver. Não é este, certamente, o melhor caminho. Proponho, assim, uma reflexão sobre a natureza de nós ambos, sobre a nossa capacidade de amar, sobretudo. O amor é sempre assim inexplicável. O seu oposto – o ódio – também não poderia deixar de sê-lo. São sentimentos, paixões, emoções, coordenadas a partir de uma reflexão, que é o ato de pensar.

As sensações vêm e devemos refleti-las, analisa-las, mesmo, como no seu caso, com a pouca idade, a fase de eloquente e pretensa liberdade, de oposições, até de revoltas. Mas, é ao mesmo tempo uma fase de fantasias, de sonhos e de prazeres, cuja repetição não se dará na fase adulta. O confronto desses sentimentos é que traz o equilíbrio ao sentimento humano. Tem-se amor e se define como dirigi-lo. Basta ter coragem para fazê-lo, amiúde, com a vontade do coração. Para isso não há regras, não há ditames, não há formas: há amor. E se o amor existe, existe vida e sabedoria. Não há caminho mais eficaz ao conhecimento que o amor, pai de todos os sentimentos nobres.

Com amor, há condescendência salutar à remição dos erros, há o carreiro da verdade, da fé, da solidariedade. Não saberá falar de amor aquele que cultua o ódio, pois só se fala daquilo que se conhece. Eu, nesse sentido, cultuo o amor, mesmo que pareça ser da maneira mais ambígua, amorfa, displicente.

Amo, por assim dizer, a sua paz, porque a quero apaziguada; amo a sua ternura, porque a quero terna e meiga; amo a sua beleza, porque a vejo e sinto bela; amo a sua certeza, porque é a minha certeza; amo o seu erro, porque é reflexo do meu erro; amo a sua tristeza, porque ser triste é contentamento quando essa tristeza o amor encerra (significa); amo essa existência à qual dei causa espiritual e amo o universo desse ser que procuro decifrar pensando.

Por isso, viajo às minhas entranhas para expiar-me e ser merecedor dos laços que nos unem, involuntários.

Há, pois, um tanto de mim em cada gesto inconsciente dessa menina que você representa. Há um tanto de mim, odiento, em seus erros e, satisfatório nos acertos. Há um tanto de mim Na sua saudade, no seu sarcasmo, até no eventual ódio. Mas há mais de mim em seu afeto e mais um tanto de mim na sua solidão. Esse tanto de mim que lhe castiga refere-se ao inevitável laço da ideia, do espírito, da voz uníssona num mundo fora de nós corpóreos: porque somos alma, energia, que se cruzam.

Somos, assim, inevitáveis. Amo do jeito que sei amar; e, e por esse amor, hei de reafirmá-lo a cada dia, talvez porque morresse, se houvesse, nesse coração e nessa cabeça, um tanto de mim no esquecimento.
(Pássaro Ausente)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Belos girassóis

Certa de ter em mim algo inexprimível


O tanto que não posso dizer é o tanto que posso sentir

E esse tanto de ter que é parte de mim, vem de ti

Ora, sinto sem saber, emana daqui, ressalta do meu ser

Disso que tenho em mim não sei, não há, não dá, sei lá

Certa do que quero: te sentir, te amar, te eternizar

 
Girassóis de Van Gogh

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Curas por Francisco de Assis e Jesus

Francisco de Assis, o mesmo João Evangelista apóstolo de Cristo, ficou conhecido como médium de Jesus e realizou muitas curas em sua última reencarnação. Relata Miramez, autor espiritual, que em inúmeras ocasiões em que a cura foi efetuada, sobre as mãos de Francisco estavam as mãos de Jesus. É que as curas instantâneas ocorrem somente com a presença de Jesus, principalmente quando se trata da revitalização de um corpo que se encontra quase que integralmente danificado, como nos casos de lepra.

Com efeito, para as curas instantâneas, faz-se necessário que haja grande saber espiritual na pessoa do curador para que imediatamente cesse o processo enfermiço no corpo do doente. E que saber seria esse? Segundo Miramez, o curador deve conhecer os fundamentos da vida do enfermo, pois por vezes a operação se dará no campo mental, de modo a transformar pensamentos e atitudes. A respeito do citado “saber espiritual”, entendo que ele se consubstancia em forma de revelação espiritual, ocasião em que médiuns ostensivos fazem uma espécie de leitura da pessoa a qual estão adiante.

Durante o processo de cura, o enfermo se abre para receber os fluidos doados pelo operador. E há que se mencionar que em “O livro dos médiuns”, informa-se que as curas podem ocorrer pela simples ação de um magnetizador, desde que saibam conduzir as energias. Por outro lado, no médium curador, a faculdade flui espontaneamente, bastando às vezes um toque, um olhar, um gesto.

A célebre frase do Mestre: “A tua fé te curou”, indica que em alguns casos, os enfermos agem como se fossem os próprios curadores, sendo de pequena monta o trabalho do doador. Assim ocorreu com a mulher que tinha fluxo de sangue havia 12 anos que, ouvindo falar das maravilhas e prodígios que Jesus operava, seguiu-o e tocou a sua vestimenta. O pensamento da mulher era que se tocasse o Mestre, ficaria curada. E assim aconteceu. Após o toque sentiu que fluxo cessara (Marcos 5, 21-29).

Jesus percebeu que alguém o havia tocado. Relata a bíblia: “E logo Jesus, conhecendo que a virtude de si mesmo saíra, voltou-se para a multidão e disse: Quem tocou nas minhas vestes?” Havia uma multidão atrás dele, e os discípulos não souberam responder. Eis que a mulher do fluxo de sangue se apresenta revelando a verdade, quando então disse-lhe o Mestre: “Filha, a tua fé te salvou; vai em paz e sê curada deste teu mal” (Marcos 5, 30-34).

A cura operou-se mediante a fé da mulher do fluxo de sangue. E Jesus, como o maior dos médiuns curadores, imediatamente verificou que a virtude de si mesmo saíra, uma vez que detentor de faculdade que involuntariamente se manifestava e ainda se manifesta, consoante explicação oferecida em “O Livro dos Médiuns”. Isto não significa dizer que a cura só se opera mediante a fé. Evidente que esta consiste em mola propulsora em nossas vidas, porém, segundo Miramez, é possível a cura sem a referida ferramenta.

Uma outra modalidade de cura, são as curas à distância, ocasião em que o curador atua desdobrado e pela clarividência identifica o tipo da doença e suas causas, buscando na fonte divina aquilo que precisa ser substituído em função da debilidade. Trabalha-se concomitantemente a consciência da pessoa, incutindo pensamentos favoráveis a cura, suavizando ansiedades, fomentando ideias relacionadas a paz, ao bom ânimo, entre outros.

A Palavra relata um caso que envolve a cura instantânea e à distância. Havia uma mulher cananéia (estrangeira) que clamou pela misericórdia de Jesus quando este se dirigia a Tiro e Sedom. Ela pedia aos gritos a cura de sua filha endemoninhada, isto é, em estado de grave perturbação espiritual. Jesus nada falou, e continuou prosseguindo. Mas a barulheira da mulher estava incomodando os discípulos, que pediram a Jesus que a mandasse embora. Jesus então afirma a eles que havia sido enviado para buscar somente as ovelhas perdidas da casa de Israel, ou seja, o povo hebreu, aqueles que já acreditavam num único Deus, e não ao povo ao qual ela pertencia.

Ouvindo isto, a mulher ajoelha-se e clama pela ajuda do Mestre. Porém, ele retruca: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-los para os cachorros”. Queria reafirmar, pois, que havia sido designado para um povo ao qual ela não compunha, como forma de testar a sua perseverança e fé. Diz a mulher: “Sim, Senhor, mas até mesmo os cachorrinhos comem as migalhas que caem debaixo da mesa de seus donos” (Mateus 15, 21-27). Logo reconheceu Cristo que a mulher cananéia tinha muita fé, e declarou: “Que seja feito o que você quer!”. E no mesmo instante a filha foi curada.

Descrever as maravilhas que Jesus fazia à época que esteve reencarnado referindo-se tão somente a sua evolução espiritual parece pouco, e de uma superficialidade matematicamente injusta. Elucubrar sobre as energias, magnetismo e manipulação de fluídos que dele emanavam, também não é suficiente para defini-lo em sua magnitude. Jesus é muito mais que um espírito evoluído ao qual foi designada a missão da governadoria da terra, ele é o médium de Deus! Aquele que é amor em todas as suas feições de caridade. É a luz do mundo. É caminho, verdade e vida.

A indução mental do curador para o enfermo e o processo de sua cura pode durar somente minutos. Existem, porém, dois fatores que são responsáveis pela variação do tempo, quais sejam: a elevação espiritual do curador e a lei do carma. Pois, a dor em determinadas situações consiste na cura necessária. Todo mal físico é precedido de um mal moral. Esta é uma regra para qual não cabe exceções. A doença é fruto de más condutas em vidas atuais e pregressas, de comportamentos em desacordo com as Leis de Deus, que se refletem no corpo físico como decorrência lógica da premissa “mente sã corpo são” e surge para impulsionar as pessoas para a reparação moral.

A cura se materializa através do uso de vários elementos: ervas, passes, medicina homeopática, agulhas orientais, entre outros. Importa ressaltar, todavia, que dois elementos devem estar agregados aos referidos recursos, segundo Miramez: o Evangelho de Jesus, verdadeiro sustentáculo que faz a cura estabelecer-se no organismo, e a força do pensamento. O pensamento é o canal que conduz a energia a ser utilizada na transformação pretendida com a cura. Acrescentaria um terceiro fator: rogar a Deus que seja feita a sua vontade e não a nossa, como prova da obediência às suas leis: ação e reação, reencarnação, progresso, entre outras.

Ainda no que se refere às curas instantâneas, há que se reafirmar que elas só se operam mediante a presença do Mestre divino, pois Ele é o único que sabe transformar a luz de Deus, para restabelecer a harmonia orgânica dos corpos enfermos, razão pela qual são chamadas curas divinas.

Francisco de Assis era um instrumento nas mãos de Jesus, assim como tantos outros anônimos. A esse respeito, Miramez evidencia que o que permite a ligação entre o Mestre e a “pessoa instrumento” é o AMOR, o mais puro AMOR, pois Jesus SEMPRE busca seus irmãos para com eles sintonizar para transmitir-lhes as bençãos de Deus.

E qual a chave para abrir essa porta e encontrar a sintonia com o Cristo de Deus? Resposta: É o evangelho! Supremo Código Divino! É estar o mais dentro possível das leis de Deus. Miramez garante: “se respeitarmos os seus preceitos, estaremos em sintonia com a força universal do Amor e seremos atendidos por essas leis que regulam a própria vida que estagia na Terra.”

Por fim, afirmar que Jesus continua o mesmo que era à época de sua vinda, é o mínimo que devemos considerar ao pensarmos nele. O que quero e preciso exaltar é o poder que guarda o seu nome, o seu ser. Aquilo que prefiro denominar poder e que talvez você prefira chamar de ação dos espíritos sobre a matéria.



Fonte:

Francisco de Assis – Miramez (psicografado por João Nunes Maia).

O Livro dos Espíritos

O Livro dos Mediuns

domingo, 4 de setembro de 2011

Poema de uma Tupinambá




Por que tu não vens sentir aqui
o cheiro da Amazônia
Só chuva que não tem mais fim
e um calor que nos dá sombra
nas mangueiras de Nazaré...
aproveita e pede a benção
que ela é mãe até de quem não quer
Também poderás saber
dos aromas do tucupi
do tacacá da mulher lá do canto
da maniçoba, da tapioca com açaí
Ó que vejo alí, da janela de lá?
águas doces pelos encantos
dos botos do Rio Guamá!
Ó Terra que vem do Grão
Teu povo quer atenção, Pará!
Quer descansar os pés
dar voltas com carimbó e siriá
És nossa bela inspiração,
cidade morena,
queremos te cuidar!



By Isabela Bentes de Lima

sábado, 19 de março de 2011

Qual o tamanho do seu ego?

A existência de um ego é intrigante...
Afinal, o que é o ego? Descobri em mim uma curiosidade sobre essa coisinha que me pareceu ser algo um pouco perturbador, após ter lido uma mensagem de Joana de Ângelis, na obra "Atitudes Renovadas".
Trata-se de um livro excelente, e o que ele tem de bom, tem de provocador. Tenho lido em doses homeopáticas, a cada artigo me vejo imersa em profunda reflexão.
O que hoje me intrigou foi o seguinte trecho, o qual reproduzirei: " As acusações que fazes, informando que os outros estão contra ti são síndromes doentias do ego dominador, desejando submeter as outras pessoas ao seu talante, conforme já conseguiu em relação a ti". (p.136)
O tal do ego há de ser dominado! Parece que tem vida própria...estaria ele ligado aos instintos? É, vou ter que estudar mais sobre o assunto.
Boa noite!

quinta-feira, 17 de março de 2011

Um momento de oração...

"A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos" - Tiago, 5:16.
Hoje vou falar um pouco do poder da oração. Tiago, apóstolo de Jesus, deu seu testemunho dizendo que a oração do justo pode muito em seus efeitos. E há muitos outros relatos na bíblia sobre a experiência de pessoas que foram beneficiadas com a força da oração.
A referência que é feita ao "justo", refere-se à pessoa em processo de purificação interior, isto é, em trabalho por sua melhor moral, que tem o pensamento em consonância com o bem, no esforço sincero de transformação. O justo, em razão de sua obediência aos propósitos de Deus de progresso moral, encontra guarida nas amizades espirituais que efetua em sua jornada, muitas vezes sem saber. E tais amigos espirituais realizam intercessões, que se avolumam cada vez mais, conforme os degraus subidos da evolução.
É o que diz Emanuel: "Quem ajunta amigos, amontoa amor. Quem amontoa amor, acumula poder" (Fonte Viva - mensagem "A oração do Justo")
No mesmo sentido, encontramos na bíblia a história do Rei Ezequias, que em oração rogou ao Senhor: "Ah, Senhor! Sê servido de te lembrar de que andei diante de ti em verdade e com o coração perfeito e fiz o que era reto aos teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo. Sucedeu, pois, que não havendo Isaías ainda saído do meio do pátio, veio a ele a palavra do Senhor, dizendo: Volte e dize a Ezequias, chefe do meu povo: Assim diz o Senhor, Deus de Davi, teu pai: ouvi a tua oração e vi tuas lágrimas; eis que te salvarei; ao terceiro dia subirás à Casa do Senhor" (2 Reis 20. 2:3)
Por certo que a fé de Ezequias associada a sua justeza moral, ocasionou o resultado positivo esperado, que são as bençãos de Deus, que no presente exemplo se deu com a cura de sua enfermidade, conforme nos relata a palavra sagrada. Fenômeno este, totalmente elucidado pela Doutrina Espírita, quando nos informa no Evangelho Segundo o Espiritismo e no Livro dos Espíritos que a prece consiste em apelo, súplica, e também num ato de adoração, que faz atrair para si o auxílio dos bons espíritos encarregados de concretizar a vontade de Deus.
Importa reproduzir, a resposta fornecida para a pergunta n. 659, do Livro dos Espíritos: "A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir e agradecer" .
Não significa dizer, pois, que todas as nossas súplicas serão literalmente atendidas, pois Deus como Pai, sabedoria e inteligência suprema, não pode atender um pedido puramente egoísta, ou uma tolice, entre outros. Porém, o pedido do justo adquire outra conotação, até mesmo porque suas petições terão conteúdo diferenciado, mais nobre, de acordo com seu processo de aperfeiçoamento.
Interessante observar o que nos dizem os espíritos: que através da prece podemos louvar. Frequentemente, pedimos e agradecemos. Mas, raramente declaramos nosso amor a Jesus, afirmando em oração que Ele é digno de todo louvor e da mais perfeita adoração, e evidenciando o Seu mérito por isso!
Ezequias orou com fé. Assim como tantos outros personagens bíblicos e pessoas anônimas em nossa atualidade.
Orar, pode, então, mudar tudo.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Emanuel, guia espiritual do médium Chico Xavier, nos presenteou com inúmeras reflexões e histórias contadas com base na Doutrina de amor de Jesus Cristo.
Evidencio um trecho de uma de suas mensagens, que provoca muitas reflexões. Vejam:
"a maledicência é um tóxico sutil, (...) quem sorva semelhante veneno é, acima de tudo, servo da tolice" - emanuel na obra Fonte Viva.

Reflexões sobre a tolerância religiosa à luz da Doutrina espírita e da Constituição Federal de 1988




Jesus é imensurável fonte de alegrias. Algumas vezes, porém, encontramos na literatura espírita relato de Emanuel afirmando que Ele sofreu (vide Fonte Viva, mensagem "solidão") e também Joana de Ângelis menciona em "Atitudes Renovadas" que tantas vezes ele chorou contemplando a loucura humana. O Seu amor por nós é tão imenso e profundo, que transforma nossas vidas a cada instante, quando permitimos que Sua divina presença se perpetue em nossos corações. E por esta razão, é digno de nosso sincero agradecimento e adoração. Na pergunta n. 659 em O livro dos espíritos, Kardec pergunta: "Qual caráter geral da prece?" E os espíritos prelecionam: "A prece é um ato de adoração".


Há, em algumas manifestações religiosas, certa fusão na figura de Deus e Jesus, com a associação dos dois conceitos, e ainda a figura do espírito santo, dando ensejo a existência de uma santíssima trindade composta por: Pai, Filho e Espírito Santo. Na minha compreensão, o que ora é dito quando se afirma que Jesus representa a forma humana de Deus, é que Ele simboliza a presença dos atributos de Filho de Deus desenvolvidos em sua pessoa quando encarnado. E Sua pureza, indica que está imbuído do espírito santo, isto é, o Seu ser encontra-se em sintonia com a harmonia universal.[1]


Vejo mais como uma simbologia do que propriamente a convicção de que Deus e Jesus seriam a mesma coisa. Ora, se fomos criados simples e ignorantes, mas com uma centelha divina capaz de nos aperfeiçoar a cada vida, é o mesmo que dizer que formos criados a imagem e semelhança de Deus. Para mim, o que realmente difere é a linguagem, uma questão de ponto de vista e interpretação.

Ademais, em "O que é o espiritismo?", Kardec aduz "Crede, pois, em tudo que vos aprouver, mesmo na existência do diabo, se tal crença vos puder tornar bom, humano e caridoso para com os vossos semelhantes. O espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. É uma ciência de observação que, repito, tem consequências morais, que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto às questões secundárias, ele as abandona à consciência de cada um." (grifos meus)[2]

Como forma de respeitar as diversas manifestações religiosas, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR/88), preleciona em seu artigo 5º, inciso VI, que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.

Considerando as ponderações de Kardec, que, convicto das revelações feitas pela doutrina espírita à época, e imbuído de espírito de fraternidade e tolerância, afirmou que o mais importante é que as religiões conduzam ao caminho do bem, urgente que é a nossa transformação moral.


Não me parece, pois, adequado considerar que outras crenças sejam vãs, se essa visão é tão somente pautada na diferença entre as religiões, nas diferenças de rituais, de costumes e crenças, entre outras, seja com base na Doutrina Espírita seja com base nos ditames da Carta de 1988.

O senso crítico deve ter como objeto averiguar se se persegue o caminho do bem, conforme os ensinamentos do Cristo, pois é a prática do bem a única conduta sugerida que tem caráter de imponência. No entanto, lamentavelmente, a liberdade de crença, assegurada constitucionalmente e salvaguardada pela Doutrina do Cristo, ainda encontra espaço nos sarcasmos humanos, nas piaditas infelizes sobre os modos de expressar a religiosidade de cada um. Verifica-se no dia a dia, o comentário inoportuno sobre o “aleluia” de uns e sobre o “sinal da cruz” de outros.

Cumpre alertar, portanto, aos amigos de ideal, que a tolerância religiosa deve fazer parte da conduta da pessoa em transformação interior, em seus mais inócuos comportamentos e gestos, pois aprender a lidar com as diferenças faz parte do exercício para eliminar o orgulho ainda presente em nós. O desprezo pela crença alheia nada mais revela do que nosso primitivismo moral e uma imaginária sensação de superioridade, muitas vezes inconsciente, demonstrando que ainda não aceitamos a todos como irmãos, independentemente das escolhas que fazemos.

A esse respeito, a Bíblia Sagrada em I João, 2:11 diz que “aquele que aborrece a seu irmão está em trevas e anda em trevas e não sabe para onde deva ir, porque as trevas lhe cegaram os olhos”. Emanuel, comentando a passagem reproduzida através da mensagem “Na ausência do amor”, em Fonte Viva, aduz que “se não sabes cultivar a verdadeira fraternidade, serás atacado fatalmente pelo pessimismo, tanto quanto a terra seca sofrerá o acúmulo de pó”. E complementa o caridoso orientador: “Tudo incomoda àquele que se recolhe à intransigência. Os companheiros que fogem às tarefas do amor são profundamente tristes pelo fel da intolerância com que se alimentam.”
Cumpre-nos, pois, refletir sobre a mensagem deixada por Emanuel, certamente pautada em sua experiência de reforma íntima, que conclui: “aprendamos a viver com todos, tolerando para que sejamos tolerados, ajudando para que sejamos ajudados, e o amor nos fará viver, prestimosos e otimistas, no clima luminoso em que a luta e o trabalho são benção de esperança”.
Trabalhemos, então, por nosso aprimoramento moral, deixando de lado aquilo que Kardec chamou de “questões secundárias”, de modo a abrir espaço em nossos corações para o convívio saudável com a diferença.


[1] Ver pergunta 112, em O Livro dos Espíritos.
[2] Ver a obra “O que é o espiritismo?”, p. 134.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O recomeço

De onde ando, por entre as estradas mais perversas e pelos vales mais bem desenhados, volto para meu recanto interior de sensatez.
Os rastros dos meus sapatos continuaram no chão, suaves... a corneta que anuncia que atingimos o meio do dia propaga ao tempo o relato não mais da minha morte, mas da minha ressurreição.
Minhas cinzas são levadas pelo vento... lentamente, de onde, lentamente a fênix ressurgirá para viver mais um tanto de números de anos até o próximo fim.
Dos amigos, não sei nem os nomes, somente guardo as siglas que não mostram a real identidade: é com quem compartilho as impressões do mundo, para quem revelo a familiaridade de minhas sensações, são as pessoas que figuram na narração que leio.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

LIBERDADE


A entrevista do Roberto Justus ontem no programa da Marília Gabriela suscitou algumas reflexões. Relatou o bem sucedido empresário e apresentador sobre conservadorismos da sociedade, como por exemplo, em querer eternizar relações ou manter mentirinhas, que para Cazuza seriam sinceras, e também sobre alguma inflexibilidade nas suas relações em razão da idade.


Já vi alguns comentários a respeito das possíveis polêmicas falas de Justus, afirmando ser “muito fácil manter um relacionamento quando somente uma pessoa tem que ceder”, pois o apresentador disse que sua esposa amoldou-se a muitos de seus hábitos e modo de vida.


Em tantos minutos de entrevista, certamente não foi aquela fala de Justus a mais interessante e admirável de todas, mas me pergunto por que há certo prazer em exaltar o lado ruim das coisas? Caramba, o homem é uma das pessoas mais bem sucedidas no Brasil, e não é só uma questão financeira, tem tantos ricos por aí caindo de tanta depressão e de vícios. Não é o caso dele, porém, que é uma pessoa transparentemente bem resolvida. É de tirar o chapéu: faz o que gosta, faz bem o que faz, ganha bem por isso, é amante da verdade, e ainda consegue estimular os outros a desenvolver o próprio potencial.


Há um tempo venho pensando numa forma empreendedorista de encarar meus projetos pessoais. Como se minha vida fosse uma empresa. Não para atender às exigências do capital, mas para me enxergar como uma pessoa que precisa se superar todos os dias. Não por causa da concorrência, e sim para usufruir de uma condição de liberdade cada vez maior. Nada mais estimulante do que ter como foco superar dificuldades e obstáculos, e ainda mais quando essas intempéries são de índole moral, emocional e intelectual.



Depois de ver a entrevista, fui dormir, mas com vontade de fazer um milhão de coisas, super estimulada com a fala de alguém que com sua experiência consegue alcançar marcas de nossa subjetividade, mas só daqueles que realmente querem mudar. E fiz muitas coisas, só que em sonho, onde a liberdade além de real é romântica.



Da juventude, eu só quero guardar os sonhos e o desejo de transformação. Da vida adulta, eu quero os conselhos dos mais velhos. Na velhice, talvez queira descansar os neurônios e contar minhas histórias. Mas, hoje, especialmente, hoje, quero dizer que sou livre!!!!!!!!!!!!!!!!



Aos que reclamam além da conta, aos que só enxergam o lado negativo, aos que vivem de mau humor, aos que se comprazem em aprisionar os outros ou não conseguem viver de forma diferente, fazer uma atividade física pode ser um bom começo para essa mudança. Liberte-se.

domingo, 7 de novembro de 2010

COTIDIANO



Sempre apreciei a solidão. Contemplar o silêncio. Ter que dialogar comigo apenas. Ficar sem fazer absolutamente nada, a não ser percebe-me individual. Ouço uns passarinhos, faceiros, rodeando a casa, uma ambulância ao longe, uns ruídos da televisão, o sopro do vento.


Mas, o que ouço, e que sutilmente suaviza o cansaço rotineiro, são vozes que emanam de mim, como luzes renascentes. São pensamentos que pululam como brotos germinando na primavera. Nos últimos dias, especialmente, tenho apreciado ficar terrivelmente sozinha.


Outro dia tive a impressão de que as pessoas, amontoadas, se perdem em grupos, convertem-se num todo, pois não se contentam em ser apenas uma pequena parte ou simplesmente não conseguem. Aí, o espaço para a diferença encurta, e todos acabam se homogeneizando involuntariamente para completar a harmonia do conjunto, uns cientes outros nem tanto. De alguma forma deve parecer bom perder-se no todo, pois é como um alucinógeno: perpetua-se num estado de profundo torpor.


Então, no emaranhado social, pouco a pouco elaboramos e reelaboramos histórias que inspiram uns a transformar a realidade em cinema romântico-realista. Estranho isso! Enquanto uns gostariam de viver a vida de glamour hollywoodiano dos atores e atrizes, estes se comprazem em encenar a vida comum. No final das contas, ninguém foge à regra de querer a qualquer custo escapar da própria condição humana de existir social e individualmente.

Copiam-se artisticamente os dias que se sucedem harmonicamente, numa previsibilidade irritante. Encontram-se fatos e atos que se entrechocam continuamente, originando um enredo. Mas, o que faz uma história interessante não são os fatos objetivamente observados, é a confusão entre as subjetividades controversas. E então assim o tempo alia-se a nós ora como cúmplice ora como testemunha ocular de nosso cotidiano. E passa. E quanto menos atento se está para o tempo, mais ousado em sua velocidade ele é. A verdade é que tudo finda, por mais constante que seja a periodicidade da existência.

Tenho andado objetivamente bem: vigor físico, lar, família, trabalho.


Tenho andado subjetivamente controversa.

obs: O quadro é de Tarsila do Amaral -> "Os Operários" - 1933

domingo, 29 de agosto de 2010

FAMÍLIA, UM PROJETO DE DEUS


O núcleo da sociedade, de onde surgimos e criamos nossa primeira identificação de humanidade é a família. A mãe, o pai, a tia, a avó, o irmão, enfim, este é o primeiro meio social a ser experimentado pela pessoa ao nascer. Daí vão surgindo as primeiras referências para tudo, primeiro para as necessidades básicas como alimentação, higiene, vestuário e logo a influência dos hábitos dos membros da família começam a influenciar o comportamento do novo ser.


É por isso que uma família agitada tende a propiciar ambiente favorável para que os novos componentes também assim sejam. Trata-se tão somente de uma tendência, que pode vir a gerar o resultado citado ou não. Pois, o espírito ao reencarnar já trás consigo sua personalidade pronta com suas vivências passadas que aos poucos despontam conforme o desenvolver físico e emocional da pessoa.


Prelecionam os espíritos ao responderem a pergunta de Allan Kardec 132 em “O livro dos espíritos” que Deus impõe a reencarnação a todos com o objetivo maior de atingirmos a perfeição seja através das provas e/ou expiações a que estamos sujeitos, que nos testam as virtudes fazendo-nos exercitá-las, seja por meio de uma missão, reservada aos espíritos em condição mais elevada que a maioria de nós. Ademais, ressaltam outro intento da reencarnação, qual seja, a de contribuir com seu quinhão para a obra da criação. Sendo a evolução o fim da reencarnação, a participação de cada um para o aperfeiçoamento do globo consiste num mister designado por Deus, para facilitar nossa depuração.


O espírito, após período de esclarecimento e aprendizado no plano espiritual, reencarna não raras vezes no seio familiar daqueles a quem outrora odiou, pois o intuito de Deus é promover a reconciliação entre os seus, e escolheu o núcleo familiar como o espaço ideal para iniciar a implementação de relações sociais mais amorosas.


A doutrina espírita cuida de esclarecer-nos que o espírito que reencarna vem para o plano terrestre com o objetivo de progredir, e a missão dos pais com os filhos é a de conduzir seus filhos a Deus, isto é, auxiliar o processo evolutivo deles empreendendo todos os esforços possíveis para tanto. Pois, relembra Santo Agostinho, em sua comunicação em Paris, 1862: “Lembrai-vos de que, a cada pai e a cada mãe, Deus perguntará: ‘Que fizeste do filho confiado à vossa guarda?’ Se permaneceu atrasado por vossa culpa, vosso castigo será vê-lo entre os espíritos sofredores, quando dependia de vós a sua felicidade. Então, vós mesmos, atormentados pelo remorso, pedireis para reparar essa falta; solicitareis uma nova encarnação par a vós e para ele na qual o rodeareis de melhores cuidados, e ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com seu amor.”[1]


Deus sabe da capacidade e das condições psico-emocionais de cada um e não entrega fardo que não seja compatível ao que se pode suportar. Elabora, portanto, um plano perfeito para cada um de nós, um projeto de família com pessoas em condições de depuramento coletivo, a ser desenvolvido a partir da escolha individual em dar cabo ao empreendimento divino ou não. A esse respeito, relata a bíblia sagrada em 1 Crônicas, 10: “Olha, pois, agora, porque o Senhor te escolheu para edificares uma casa para o santuário; esforça-te e faze a obra”. Por fim, o Salmo 103-17 relata a seguinte promessa de Deus: “Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos;”, porque a misericórdia de Deus está nos céus, e a sua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens (Salmo 36-5).




[1] Vide o Evangelho segundo o espiritismo, capítulo 14, item 9: A ingratidão dos filhos e os laços de família por Santo Agostinho.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ditadura?





Nenhuma ditadura sobreviveu. Nenhuma ditadura sobreviverá. O desejo humano pela liberdade sempre se sobreporá à pequenez dos falsos líderes, daqueles que acreditam que a melhor forma de gerenciar é impondo ideias, tolhendo a capacidade inata de cada um de elaborar percepções.

Mas, sim, algumas ditaduras ainda vigoram, a do consumismo desmedido, a do corpo desenhado, a supervalorização da juventude, ou melhor, da depreciação da velhice. A ditadura da corrupção e da imoralidade, que se reflete na represália covarde daqueles que defendem os princípios constitucionais e o ordenamento jurídico. A ditadura do silêncio, que cerceia tacitamente a falar sobre o que ninguém quer falar por medo, medo e vergonha de si mesmo.

A ditadura militar não é mais do nosso tempo. Já era. Pertence a uma outra época. Passou. Ela foi a grande responsável pelo esforço coletivo em concretizar o direito de contradizer, de argumentar, de participar, de reunir, de expressar, de escrever, de cantar, de dizer, de votar. Uma vez conquistados tais direitos, o processo histórico volta-se para a conquista de outros que venham a complementar o exercício da dignidade humana.


Há sim, certo saudosismo presente na fala e na postura daqueles que não sabem falar de democracia e direitos humanos sem olvidar daquele governo ditador. Há sim extemporaneidade no discurso pretérito sobre épocas que, como já disse, não sobreviveram, nem nunca sobreviverão. Pois, há muito o que se falar do tempo em que estamos. Todavia, deixa-se de costurar os novos caminhos da história, com novos debates, novas divergências, novas argumentações, para paralisar noutra era, para se alimentar de um ponto de partida ultrapassado.

Enquanto isso, a modernidade medieval dos direitos sociais, culturais e econômicos desbotam cada vez mais nos semblantes preocupados com o porvir de um tempo que já foi. Não que não seja importante rediscutir a história, mas é que a ditadura militar dificilmente sai da pauta da discussão dos direitos humanos para dar espaço para temáticas futuristas. É, porque tá tão difícil falar sobre educação, saúde, direitos trabalhistas, moradia, proteção à maternidade e à infância, que estes já viraram temas pertencentes às sociedades de outros planetas.

domingo, 21 de março de 2010

Lealdade


Ser leal é ser sincero, dedicado, fiel, é assumir o compromisso de respeitar o outro. É não querer ver a pessoa objeto de nossa proteção ser alvo das línguas malsãs, tampouco seremos nós mesmos proprietários destas.

Ser leal é falar a verdade com amor, com o desejo sincero de ver uma perspectiva melhor para aquele que a ouve, é também deixar de falar a verdade, na medida correta, não é mentir, é salvaguardar.

A lealdade é gênero, a fidelidade espécie. A lealdade é ampla, abstrata, complexa, a fidelidade é exata, moldada, quase imposta. A lealdade é automática, advém naturalmente da sublimidade dos nobres sentimentos, a fidelidade é pactual, raciocinada, engessada.

Na guerra das virtudes para eleição de qual delas é a suprema, a lealdade atinge patamar específico, inabalável. É o sentimento que sustenta todos os outros, que freia, que incentiva, e conduz ciclicamente ao amor ou a própria manifestação deste.

E por aí vamos, nos julgando humanos, espertos, inteligentes, astutos, viris, verdadeiros símbolos da evolução, quando na verdade conhecemos como ícone da lealdade o cão, através de diversas histórias de devoção e compromisso. “O cão é o melhor amigo do homem”, dizem uns, “lealdade é qualidade de cachorro que nem todas as pessoas têm”, dizem outros. O que não nos reduz a uma condição inferior, e sim faz confirmar que ainda estamos aprendendo a nos tornar seres humanos.

Todos queremos ser objeto da lealdade de alguém, mas quantas e quantas vezes exigimos uma incodicionalidade de amor que desconhecemos sentir...mas sempre estamos lá com requerimentos irrestritos, como déspotas.

“Serei, serei leal contigo...”, é a promessa cantada por Caetano. Seja real.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Todo carnaval tem seu fim


Completei um quarto de século nessa existência, nas vésperas do carnaval, ou para quem se antecipa nas comemorações, na quinta feira de carnaval.


Foi um aniversário diferente, o primeiro comemorado a caráter: fantasia, confetes, serpentinas, marchinha de carnaval, máscaras, etc.


Todos os anos, desde de criança, sentia um certo vazio no dia do aniversário, porque nunca caía numa data que eu estivesse na escola, ou era férias, ou não era dia da semana. Mas esse ano foi diferente, a comemoração tinha que ser triunfal, e foi. E o vazio foi todo preenchido com a minha alegria em estar viva, conforme a vontade D'ele.


Nem mesmo a limitação do meu pé direito, em recuperação, me impediu de caminhar, cozinhar e até dançar eu dancei...!


Ao contrário do que disse Marcelo Camelo, digo que nesse ano o carnaval não terá fim, pelo menos pra mim!!! "Olha a cabeleira do Zezé, será que que ele é? será que ele é, laiá laiá laiá..."