quarta-feira, 16 de março de 2011

Emanuel, guia espiritual do médium Chico Xavier, nos presenteou com inúmeras reflexões e histórias contadas com base na Doutrina de amor de Jesus Cristo.
Evidencio um trecho de uma de suas mensagens, que provoca muitas reflexões. Vejam:
"a maledicência é um tóxico sutil, (...) quem sorva semelhante veneno é, acima de tudo, servo da tolice" - emanuel na obra Fonte Viva.

Reflexões sobre a tolerância religiosa à luz da Doutrina espírita e da Constituição Federal de 1988




Jesus é imensurável fonte de alegrias. Algumas vezes, porém, encontramos na literatura espírita relato de Emanuel afirmando que Ele sofreu (vide Fonte Viva, mensagem "solidão") e também Joana de Ângelis menciona em "Atitudes Renovadas" que tantas vezes ele chorou contemplando a loucura humana. O Seu amor por nós é tão imenso e profundo, que transforma nossas vidas a cada instante, quando permitimos que Sua divina presença se perpetue em nossos corações. E por esta razão, é digno de nosso sincero agradecimento e adoração. Na pergunta n. 659 em O livro dos espíritos, Kardec pergunta: "Qual caráter geral da prece?" E os espíritos prelecionam: "A prece é um ato de adoração".


Há, em algumas manifestações religiosas, certa fusão na figura de Deus e Jesus, com a associação dos dois conceitos, e ainda a figura do espírito santo, dando ensejo a existência de uma santíssima trindade composta por: Pai, Filho e Espírito Santo. Na minha compreensão, o que ora é dito quando se afirma que Jesus representa a forma humana de Deus, é que Ele simboliza a presença dos atributos de Filho de Deus desenvolvidos em sua pessoa quando encarnado. E Sua pureza, indica que está imbuído do espírito santo, isto é, o Seu ser encontra-se em sintonia com a harmonia universal.[1]


Vejo mais como uma simbologia do que propriamente a convicção de que Deus e Jesus seriam a mesma coisa. Ora, se fomos criados simples e ignorantes, mas com uma centelha divina capaz de nos aperfeiçoar a cada vida, é o mesmo que dizer que formos criados a imagem e semelhança de Deus. Para mim, o que realmente difere é a linguagem, uma questão de ponto de vista e interpretação.

Ademais, em "O que é o espiritismo?", Kardec aduz "Crede, pois, em tudo que vos aprouver, mesmo na existência do diabo, se tal crença vos puder tornar bom, humano e caridoso para com os vossos semelhantes. O espiritismo, como doutrina moral, só impõe uma coisa: a necessidade de fazer o bem e evitar o mal. É uma ciência de observação que, repito, tem consequências morais, que são a confirmação e a prova dos grandes princípios da religião; quanto às questões secundárias, ele as abandona à consciência de cada um." (grifos meus)[2]

Como forma de respeitar as diversas manifestações religiosas, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CR/88), preleciona em seu artigo 5º, inciso VI, que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.

Considerando as ponderações de Kardec, que, convicto das revelações feitas pela doutrina espírita à época, e imbuído de espírito de fraternidade e tolerância, afirmou que o mais importante é que as religiões conduzam ao caminho do bem, urgente que é a nossa transformação moral.


Não me parece, pois, adequado considerar que outras crenças sejam vãs, se essa visão é tão somente pautada na diferença entre as religiões, nas diferenças de rituais, de costumes e crenças, entre outras, seja com base na Doutrina Espírita seja com base nos ditames da Carta de 1988.

O senso crítico deve ter como objeto averiguar se se persegue o caminho do bem, conforme os ensinamentos do Cristo, pois é a prática do bem a única conduta sugerida que tem caráter de imponência. No entanto, lamentavelmente, a liberdade de crença, assegurada constitucionalmente e salvaguardada pela Doutrina do Cristo, ainda encontra espaço nos sarcasmos humanos, nas piaditas infelizes sobre os modos de expressar a religiosidade de cada um. Verifica-se no dia a dia, o comentário inoportuno sobre o “aleluia” de uns e sobre o “sinal da cruz” de outros.

Cumpre alertar, portanto, aos amigos de ideal, que a tolerância religiosa deve fazer parte da conduta da pessoa em transformação interior, em seus mais inócuos comportamentos e gestos, pois aprender a lidar com as diferenças faz parte do exercício para eliminar o orgulho ainda presente em nós. O desprezo pela crença alheia nada mais revela do que nosso primitivismo moral e uma imaginária sensação de superioridade, muitas vezes inconsciente, demonstrando que ainda não aceitamos a todos como irmãos, independentemente das escolhas que fazemos.

A esse respeito, a Bíblia Sagrada em I João, 2:11 diz que “aquele que aborrece a seu irmão está em trevas e anda em trevas e não sabe para onde deva ir, porque as trevas lhe cegaram os olhos”. Emanuel, comentando a passagem reproduzida através da mensagem “Na ausência do amor”, em Fonte Viva, aduz que “se não sabes cultivar a verdadeira fraternidade, serás atacado fatalmente pelo pessimismo, tanto quanto a terra seca sofrerá o acúmulo de pó”. E complementa o caridoso orientador: “Tudo incomoda àquele que se recolhe à intransigência. Os companheiros que fogem às tarefas do amor são profundamente tristes pelo fel da intolerância com que se alimentam.”
Cumpre-nos, pois, refletir sobre a mensagem deixada por Emanuel, certamente pautada em sua experiência de reforma íntima, que conclui: “aprendamos a viver com todos, tolerando para que sejamos tolerados, ajudando para que sejamos ajudados, e o amor nos fará viver, prestimosos e otimistas, no clima luminoso em que a luta e o trabalho são benção de esperança”.
Trabalhemos, então, por nosso aprimoramento moral, deixando de lado aquilo que Kardec chamou de “questões secundárias”, de modo a abrir espaço em nossos corações para o convívio saudável com a diferença.


[1] Ver pergunta 112, em O Livro dos Espíritos.
[2] Ver a obra “O que é o espiritismo?”, p. 134.

sexta-feira, 4 de março de 2011

O recomeço

De onde ando, por entre as estradas mais perversas e pelos vales mais bem desenhados, volto para meu recanto interior de sensatez.
Os rastros dos meus sapatos continuaram no chão, suaves... a corneta que anuncia que atingimos o meio do dia propaga ao tempo o relato não mais da minha morte, mas da minha ressurreição.
Minhas cinzas são levadas pelo vento... lentamente, de onde, lentamente a fênix ressurgirá para viver mais um tanto de números de anos até o próximo fim.
Dos amigos, não sei nem os nomes, somente guardo as siglas que não mostram a real identidade: é com quem compartilho as impressões do mundo, para quem revelo a familiaridade de minhas sensações, são as pessoas que figuram na narração que leio.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

LIBERDADE


A entrevista do Roberto Justus ontem no programa da Marília Gabriela suscitou algumas reflexões. Relatou o bem sucedido empresário e apresentador sobre conservadorismos da sociedade, como por exemplo, em querer eternizar relações ou manter mentirinhas, que para Cazuza seriam sinceras, e também sobre alguma inflexibilidade nas suas relações em razão da idade.


Já vi alguns comentários a respeito das possíveis polêmicas falas de Justus, afirmando ser “muito fácil manter um relacionamento quando somente uma pessoa tem que ceder”, pois o apresentador disse que sua esposa amoldou-se a muitos de seus hábitos e modo de vida.


Em tantos minutos de entrevista, certamente não foi aquela fala de Justus a mais interessante e admirável de todas, mas me pergunto por que há certo prazer em exaltar o lado ruim das coisas? Caramba, o homem é uma das pessoas mais bem sucedidas no Brasil, e não é só uma questão financeira, tem tantos ricos por aí caindo de tanta depressão e de vícios. Não é o caso dele, porém, que é uma pessoa transparentemente bem resolvida. É de tirar o chapéu: faz o que gosta, faz bem o que faz, ganha bem por isso, é amante da verdade, e ainda consegue estimular os outros a desenvolver o próprio potencial.


Há um tempo venho pensando numa forma empreendedorista de encarar meus projetos pessoais. Como se minha vida fosse uma empresa. Não para atender às exigências do capital, mas para me enxergar como uma pessoa que precisa se superar todos os dias. Não por causa da concorrência, e sim para usufruir de uma condição de liberdade cada vez maior. Nada mais estimulante do que ter como foco superar dificuldades e obstáculos, e ainda mais quando essas intempéries são de índole moral, emocional e intelectual.



Depois de ver a entrevista, fui dormir, mas com vontade de fazer um milhão de coisas, super estimulada com a fala de alguém que com sua experiência consegue alcançar marcas de nossa subjetividade, mas só daqueles que realmente querem mudar. E fiz muitas coisas, só que em sonho, onde a liberdade além de real é romântica.



Da juventude, eu só quero guardar os sonhos e o desejo de transformação. Da vida adulta, eu quero os conselhos dos mais velhos. Na velhice, talvez queira descansar os neurônios e contar minhas histórias. Mas, hoje, especialmente, hoje, quero dizer que sou livre!!!!!!!!!!!!!!!!



Aos que reclamam além da conta, aos que só enxergam o lado negativo, aos que vivem de mau humor, aos que se comprazem em aprisionar os outros ou não conseguem viver de forma diferente, fazer uma atividade física pode ser um bom começo para essa mudança. Liberte-se.

domingo, 7 de novembro de 2010

COTIDIANO



Sempre apreciei a solidão. Contemplar o silêncio. Ter que dialogar comigo apenas. Ficar sem fazer absolutamente nada, a não ser percebe-me individual. Ouço uns passarinhos, faceiros, rodeando a casa, uma ambulância ao longe, uns ruídos da televisão, o sopro do vento.


Mas, o que ouço, e que sutilmente suaviza o cansaço rotineiro, são vozes que emanam de mim, como luzes renascentes. São pensamentos que pululam como brotos germinando na primavera. Nos últimos dias, especialmente, tenho apreciado ficar terrivelmente sozinha.


Outro dia tive a impressão de que as pessoas, amontoadas, se perdem em grupos, convertem-se num todo, pois não se contentam em ser apenas uma pequena parte ou simplesmente não conseguem. Aí, o espaço para a diferença encurta, e todos acabam se homogeneizando involuntariamente para completar a harmonia do conjunto, uns cientes outros nem tanto. De alguma forma deve parecer bom perder-se no todo, pois é como um alucinógeno: perpetua-se num estado de profundo torpor.


Então, no emaranhado social, pouco a pouco elaboramos e reelaboramos histórias que inspiram uns a transformar a realidade em cinema romântico-realista. Estranho isso! Enquanto uns gostariam de viver a vida de glamour hollywoodiano dos atores e atrizes, estes se comprazem em encenar a vida comum. No final das contas, ninguém foge à regra de querer a qualquer custo escapar da própria condição humana de existir social e individualmente.

Copiam-se artisticamente os dias que se sucedem harmonicamente, numa previsibilidade irritante. Encontram-se fatos e atos que se entrechocam continuamente, originando um enredo. Mas, o que faz uma história interessante não são os fatos objetivamente observados, é a confusão entre as subjetividades controversas. E então assim o tempo alia-se a nós ora como cúmplice ora como testemunha ocular de nosso cotidiano. E passa. E quanto menos atento se está para o tempo, mais ousado em sua velocidade ele é. A verdade é que tudo finda, por mais constante que seja a periodicidade da existência.

Tenho andado objetivamente bem: vigor físico, lar, família, trabalho.


Tenho andado subjetivamente controversa.

obs: O quadro é de Tarsila do Amaral -> "Os Operários" - 1933

domingo, 29 de agosto de 2010

FAMÍLIA, UM PROJETO DE DEUS


O núcleo da sociedade, de onde surgimos e criamos nossa primeira identificação de humanidade é a família. A mãe, o pai, a tia, a avó, o irmão, enfim, este é o primeiro meio social a ser experimentado pela pessoa ao nascer. Daí vão surgindo as primeiras referências para tudo, primeiro para as necessidades básicas como alimentação, higiene, vestuário e logo a influência dos hábitos dos membros da família começam a influenciar o comportamento do novo ser.


É por isso que uma família agitada tende a propiciar ambiente favorável para que os novos componentes também assim sejam. Trata-se tão somente de uma tendência, que pode vir a gerar o resultado citado ou não. Pois, o espírito ao reencarnar já trás consigo sua personalidade pronta com suas vivências passadas que aos poucos despontam conforme o desenvolver físico e emocional da pessoa.


Prelecionam os espíritos ao responderem a pergunta de Allan Kardec 132 em “O livro dos espíritos” que Deus impõe a reencarnação a todos com o objetivo maior de atingirmos a perfeição seja através das provas e/ou expiações a que estamos sujeitos, que nos testam as virtudes fazendo-nos exercitá-las, seja por meio de uma missão, reservada aos espíritos em condição mais elevada que a maioria de nós. Ademais, ressaltam outro intento da reencarnação, qual seja, a de contribuir com seu quinhão para a obra da criação. Sendo a evolução o fim da reencarnação, a participação de cada um para o aperfeiçoamento do globo consiste num mister designado por Deus, para facilitar nossa depuração.


O espírito, após período de esclarecimento e aprendizado no plano espiritual, reencarna não raras vezes no seio familiar daqueles a quem outrora odiou, pois o intuito de Deus é promover a reconciliação entre os seus, e escolheu o núcleo familiar como o espaço ideal para iniciar a implementação de relações sociais mais amorosas.


A doutrina espírita cuida de esclarecer-nos que o espírito que reencarna vem para o plano terrestre com o objetivo de progredir, e a missão dos pais com os filhos é a de conduzir seus filhos a Deus, isto é, auxiliar o processo evolutivo deles empreendendo todos os esforços possíveis para tanto. Pois, relembra Santo Agostinho, em sua comunicação em Paris, 1862: “Lembrai-vos de que, a cada pai e a cada mãe, Deus perguntará: ‘Que fizeste do filho confiado à vossa guarda?’ Se permaneceu atrasado por vossa culpa, vosso castigo será vê-lo entre os espíritos sofredores, quando dependia de vós a sua felicidade. Então, vós mesmos, atormentados pelo remorso, pedireis para reparar essa falta; solicitareis uma nova encarnação par a vós e para ele na qual o rodeareis de melhores cuidados, e ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com seu amor.”[1]


Deus sabe da capacidade e das condições psico-emocionais de cada um e não entrega fardo que não seja compatível ao que se pode suportar. Elabora, portanto, um plano perfeito para cada um de nós, um projeto de família com pessoas em condições de depuramento coletivo, a ser desenvolvido a partir da escolha individual em dar cabo ao empreendimento divino ou não. A esse respeito, relata a bíblia sagrada em 1 Crônicas, 10: “Olha, pois, agora, porque o Senhor te escolheu para edificares uma casa para o santuário; esforça-te e faze a obra”. Por fim, o Salmo 103-17 relata a seguinte promessa de Deus: “Mas a misericórdia do Senhor é de eternidade sobre aqueles que o temem, e a sua justiça sobre os filhos dos filhos;”, porque a misericórdia de Deus está nos céus, e a sua fidelidade chega até às mais excelsas nuvens (Salmo 36-5).




[1] Vide o Evangelho segundo o espiritismo, capítulo 14, item 9: A ingratidão dos filhos e os laços de família por Santo Agostinho.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ditadura?





Nenhuma ditadura sobreviveu. Nenhuma ditadura sobreviverá. O desejo humano pela liberdade sempre se sobreporá à pequenez dos falsos líderes, daqueles que acreditam que a melhor forma de gerenciar é impondo ideias, tolhendo a capacidade inata de cada um de elaborar percepções.

Mas, sim, algumas ditaduras ainda vigoram, a do consumismo desmedido, a do corpo desenhado, a supervalorização da juventude, ou melhor, da depreciação da velhice. A ditadura da corrupção e da imoralidade, que se reflete na represália covarde daqueles que defendem os princípios constitucionais e o ordenamento jurídico. A ditadura do silêncio, que cerceia tacitamente a falar sobre o que ninguém quer falar por medo, medo e vergonha de si mesmo.

A ditadura militar não é mais do nosso tempo. Já era. Pertence a uma outra época. Passou. Ela foi a grande responsável pelo esforço coletivo em concretizar o direito de contradizer, de argumentar, de participar, de reunir, de expressar, de escrever, de cantar, de dizer, de votar. Uma vez conquistados tais direitos, o processo histórico volta-se para a conquista de outros que venham a complementar o exercício da dignidade humana.


Há sim, certo saudosismo presente na fala e na postura daqueles que não sabem falar de democracia e direitos humanos sem olvidar daquele governo ditador. Há sim extemporaneidade no discurso pretérito sobre épocas que, como já disse, não sobreviveram, nem nunca sobreviverão. Pois, há muito o que se falar do tempo em que estamos. Todavia, deixa-se de costurar os novos caminhos da história, com novos debates, novas divergências, novas argumentações, para paralisar noutra era, para se alimentar de um ponto de partida ultrapassado.

Enquanto isso, a modernidade medieval dos direitos sociais, culturais e econômicos desbotam cada vez mais nos semblantes preocupados com o porvir de um tempo que já foi. Não que não seja importante rediscutir a história, mas é que a ditadura militar dificilmente sai da pauta da discussão dos direitos humanos para dar espaço para temáticas futuristas. É, porque tá tão difícil falar sobre educação, saúde, direitos trabalhistas, moradia, proteção à maternidade e à infância, que estes já viraram temas pertencentes às sociedades de outros planetas.